Entrevista com a enfermeira e professora Néria Invernizzi, aborda a evolução da estomaterapia

Como você enxerga a evolução no tratamento da pessoa com estomia nas últimas décadas?

Em 1958, o médico Dr. Rupert Turnbul, em Cleveland, solicitou para a Sra. Norma Gill (uma pessoa ileostomizada) para acompanhar tecnicamente as pessoas seriam submetidas a uma cirurgia geradora de estomia. Estas pessoas com estomia passaram a se reunir e debater assuntos referentes à mudança da sua rotina devido a alteração na forma de eliminação e com isso fundaram uma associação que defendiam seus diretos.

A defesa destes diretos e a solicitação de um profissional especializado para o “cuidar” de uma pessoa com estomia – sendo que em 1961 houve o primeiro curso de Estomaterapia – deu origem então a categoria de associação de enfermeiras estomaterapeutas e profissionais com interesse na área de estomias, o World Council of Enterostomal Therapist (WCET). Em 1980, foi determinada a necessidade de uma especialização específica do profissional enfermeiro, criando assim o profissional denominado Enfermeiro Estomaterapeuta (ET). O WCET tem diretrizes para a criação de cursos de estomaterapia no mundo.

Nesta linha de pensamento, dos avanços de tratamento das pessoas com estomia, é necessário salientar a atuação constante da Profa Dra Vera Lúcia Conceição de Correia Santos considerada a “mãe” da estomaterapia no Brasil, pois foi coordenadora do primeiro curso de Especialização em Enfermagem em Estomaterapia na Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (EEUSP), em 1990. Além deste primeiro curso, em 1992, dezenove enfermeiras estomaterapeutas, entre elas a Profa Dra Vera Lúcia Conceição de Correia Santos e um cirurgião fundaram a Associação Brasileira de Estomaterapia: Estomias, Feridas e Incontinências (SOBEST), que segue as diretrizes do WCET para a formação dos cursos de especialização em estomaterapia, e também proporciona o concurso para a titulação de enfermeiros estomaterapeutas de 6 em 6 anos, denominado TiSOBEST.

O Enfermeiro Estomaterapeuta (EE) é o profissional habilitado, que dispõem de conhecimentos que possibilitam a assistência à pessoa com estomias, fístulas, tubos, drenos, feridas agudas e crônicas e incontinência anal e urinária, nos aspectos preventivos, terapêuticos e reabilitação, visando o processo de reabilitação para a melhoria da qualidade de vida, na prescrição de equipamentos exclusivos para cada necessidade individual. O EE participa de congressos, no qual traz para a sua região os avanços tecnológicos dos equipamentos específicos para a armazenar as fezes, gases e urina, ou seja uma bolsa coletora, e conjuntamente com a aplicação industrial de bases adesivas para a proteção e adesividade a pele ao redor da estomia.

Quais são as dificuldades encontradas para um paciente com estomia no Brasil para ter acesso a novas e mais modernas tecnologias de equipamentos?

Nosso país é grande e muito diversificado pelas condições geográficas, populacionais, culturais, financeiras e Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Para a pessoa com estomia esta vertente também é real: mesmos os grandes centros urbanos não correspondem com as necessidades de recursos humanos, físicos e financeiros para a assistência integral, sistematizada e individualizada para a prescrição de equipamentos de estomia.

Acredito que para o avanço nesta área é a formação de Enfermeiros Estomaterapeutas que atuem diretamente com a pessoa com estomia. Atuar neste serviços públicos ou privados com dados estatísticos reais para um planejamento e administração dos recursos acima citado. O Brasil possui Política Nacional para Ostomizados através da Portaria nº 400, de 16/11/ 2009 que é a norteadora para Serviços de Atenção da pessoa com estomia do Sistema Único de Saúde (SUS) e para as operadoras de planos de saúde, após a Resolução Normativa nº 325, de 18/04/2013 da Agência Nacional de Saúde (ANS).

Você acredita que o tema já está devidamente incorporado na sociedade? Quais medidas devem ser realizadas para conscientizar a população sobre a estomia? 

O tema da estomia está sendo incorporado à sociedade paulatinamente, principalmente quando uma pessoa de vida pública necessita da intervenção cirúrgica de uma estomia – o que ocorreu, por exemplo, com o Governador Mario Covas e o Vice-presidente da República José de Alencar na divulgação na mídia em geral e assim cria-se interesse da população pelo assunto.

As campanhas ou programas ou ações educativas e sociais municipais, estaduais e nacional são necessárias para o entendimento das estomias, principalmente sobre o câncer de intestino, que está em 3º lugar na incidência do câncer do Brasil, pelos dados do Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva – INCA (www.inca.gov.br). Portanto as informações para prevenção, sobre os fatores de risco e as diretrizes para detecção precoce do câncer de intestino são fundamentais para a população.

Néria Invernizzi da Silveira é professora e enfª Estomaterapeuta (Ti SOBEST), coordenadora do Curso de Especialização de Enfermagem em Estomaterapia UNICAMP, coordenadora científica do Centro de Aprimoramento Profissional Stay Care, membra titular da  Associação Brasileira de Estomaterapia: Estomias, Feridas e Incontinência  – SOBEST, membra titular do World Council of Esterostomal Therapists – WCET e mestranda em Educação nas Profissões da Saúde pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

 Fonte: CHOLMED

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