Transplante fecal de doadores melhora a retocolite ulcerativa em um ensaio clínico randomizado

O transplante de microbiota fecal (TMF) de doadores com amostra processada  em anaerobiose ajudou cerca de um terço dos pacientes com retocolite ulcerativa (RCU) em um pequeno ensaio clínico duplo cego randomizado, publicado on-line no periódico JAMA em 15 de janeiro de 2019.

O transplante fecal foi aprovado pela Food and Drug Administration (FDA) nos Estados Unidos apenas para o tratamento da infecção por Clostridium difficile recorrente ou refratária. A maioria dos tratamentos da retocolite ulcerativa é voltada para a resposta imunitária e não para o microbioma do cólon.

Três estudos feitos anteriormente avaliaram a eficácia do transplante da microbiota fecal para o tratamento da retocolite ulcerativa e obtiveram resultados mistos

Os estudos utilizaram preparados de fezes em anaerobiose e transferiram grandes populações de microrganismos. Contudo, a maior parte das espécies do microbioma do cólon é anaeróbia obrigatória, e a exposição ao oxigênio durante a preparação poderia eliminar muitas espécies com capacidade de controlar a inflamação na retocolite ulcerativa.

Por isso, o Dr. Samuel P. Costello, médico do Centre for Nutrition and Gastrointestinal Disease da Adelaide Medical School, Austrália, e colaboradores investigaram se conseguiriam induzir a remissão da retocolite ulcerativa, em curto prazo, utilizando preparados de material fecal coletado de vários doadores feitos em anaerobiose.

Os pesquisadores trataram 73 adultos com retocolite ulcerativa leve ou moderada em três centros de referência terciários entre junho de 2013 e junho de 2016. Os pacientes foram avaliados após oito semanas e acompanhados anualmente até junho de 2017. Trinta e oito participantes receberam transplante de microbiota fecal processada em anaerobiose de um conjunto de doadores e 35 receberam preparado feito com as próprias fezes.

O tratamento foi introduzido por meio de colonoscopia, seguida de dois enemas em um período de sete dias. Os pacientes no grupo de controle tiveram a opção de fazer tratamento autólogo após a abertura do duplo-cego na oitava semana, e depois foram acompanhados durante um ano.

Para avaliar os desfechos, os autores usaram a pontuação Mayo, que associa marcadores endoscópicos e clínicos, e varia de 0 até 12, onde zero significa ausência de doença e 12 indica doença grave. O desfecho primário foi a remissão sem uso de corticoides com uma pontuação Mayo ≤ 2, e com pontuação Mayo endoscópica ≤ 1 na 8ª semana e na reavaliação aos 12 meses.

Doze dos 38 (32%) participantes que receberam transplante de microbiota fecal tiveram remissão, assim como três dos 35 (9%) recebendo transplante de microbiota fecal  autólogo (razão de risco ou odds ratio, OR = 5,50; intervalo de confiança, IC, de 95%, de 1,2 a 20,1; = 0,03). Cinco dos 12 participantes (42%) do grupo do transplante da microbiota fecal de doadores permaneceram em remissão aos 12 meses.

Três eventos adversos graves ocorreram no grupo do transplante de microbiota fecal de doadores (piora da colite, infecção por C. difficile com necessidade de colostomia e pneumonia) e dois no grupo de transplante de microbiota fecal autólogo (piora da colite).

Comparados aos pacientes do grupo do transplante autólogo, mais pacientes do grupo do transplante de microbiota fecal de doadores tiveram resposta clínica em oito semanas, definida como redução ≥ 3 pontos da pontuação Mayo total (55% vs. 23%; OR = 4,3; IC 95%, de 1,5 a 11,9; = 0,007). Estes pacientes também tiveram mais chance de remissão clínica, definida como pontuação ≤ 2 no Simple Clinical Colitis Activity Index (47% vs. 17%; OR = 4,5; IC 95%, de 1,5 a 13,5, = 0,01).

Além disso, na 8ª semana, 11% dos pacientes que receberam transplante de microbiota fecal de doadores tiveram remissão endoscópica sem uso de corticoides, definida como pontuação de Mayo < 1, em comparação a nenhum dos participantes do grupo de controle. Apenas um paciente do grupo de controle optou por não fazer o transplante de microbiota fecal de doadores no período com identificação do tratamento do ensaio clínico.

Aos 12 meses, havia dados disponíveis de sigmoidoscopia flexível para 26 dos 38 (68%) pacientes do grupo do transplante de microbiota fecal de doadores. Estes dados revelaram que 11 (42%) estavam em remissão clínica ou endoscópica.

O tratamento foi aceitável para grande parte dos pacientes nos dois grupos, ambos uma semana antes do tratamento do transplante de microbiota fecal (65 de 69 participantes, 94%) e aos 12 meses (57 de 60, 95%).

Os pesquisadores concluíram que “neste estudo preliminar com adultos com retocolite ulcerativa de leve a moderada, uma semana de tratamento com o transplante de microbiota fecal de doadores preparado em anaerobiose resultou em maior probabilidade de remissão após oito semanas, em comparação com o transplante autólogo de microbiota fecal”.

O estudo “gerou novas hipóteses”, segundo os pesquisadores

Mais pesquisas serão necessárias para avaliar se a maior diversidade da microbiota no material coletado de doadores, e a exclusão do oxigênio na preparação, facilitaram a remissão. As 10 bactérias e uma espécie arqueal mais abundantes são anaeróbias, e a equipe de pesquisadores citou Anaerofilum pentosovorans e Bacteroides coprophilus como “fortemente associadas a melhora da doença após” o transplante da microbiota fecal de doadores.

“O uso de fezes de um conjunto de doadores serve para aumentar a diversidade das bactérias do produto e as chances de haver material de um doador com uma composição ideal de bactérias”, escreveram no editorial que acompanha o artigo, a Dra. Colleen R. Kelly, médica da Brown University, em Providence, Rhode Island, e o Dr. Ashwin N. Ananthakrishnan, médico da Harvard Medical School, em Boston, Massachusetts.

Considerando que a diversidade microbiana diminuiu ao final de um ano, a Dra. Colleen e o Dr. Ashwin sugeriram que “os próximos estudos deveriam incorporar análises do microbioma e pontos adicionais ao longo do tempo para determinar a frequência de administração do transplante de microbiota fecal necessária para manter os efeitos”.

As limitações do estudo foram seu desenho observacional após a 8ª semana e a perda de pacientes durante o acompanhamento.

JAMA. Publicado on-line em 15 de janeiro de 2019. Abstract Editorial

Fonte: Medscape

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